Cinval Coco Grude

 

Vou começar falando sobre alguns  títulos das músicas de Cinval Coco Grude e da carga semântica das letras impregnadas  de conteúdos sociais,políticos e jocosos, próprios de sua diária convivência com o centro do Recife.

No Cd intitulado Os verdadeiros heróis nacionais, em cuja capa se estampa uma pintura de Isac Vieira já temos esse viés crítico representado por figuras como pipoqueiros, ambulantes, vendedores de picolés, os quais compõem a imagem principal do disco e demonstram de saída a quem ele quis direcionar sua homenagem.

Nele, destacaríamos as faixas “ o povo sempre tem o governo que não merece” , “ as ruínas da diplomacia” e a “tá muito sabido,(ne véi ).

Nos discos “Viajando na Tanajura” em  parceria com Ciano Alves, com quem ele também divide a autoria de “ Primitivo digital” , selecionaríamos, “Se botar no congelador, funciona (homenagem a Hermeto Pascoal) e “catraia jeitosa” do primeiro, “ florestas de fogo” e “os primeiros brasileiros “ do segundo.

Já no pitoresco “Um ET na Privada” vou reproduzir quase todos os títulos pois representam uma mistura dessa crônica social das ruas presente em quase todos os disco dele, senão, vejamos:

“Dois bêbados sóbrios” , “ eu vendo, mas não sei escrever” ( essa é sensacional, sensível, provavelmente captada de algum ambulante apressado em vender sua mercadoria e apresentando uma desculpa por não saber decifrar o rótulo talvez, uma data vencida, quem vai saber.) “ no país dos Ali-babás” , “rodando o chão de feira, atrás de restos de comida” e pra terminar este cd, a engraçada “Severina estabanada (E e seu passeio de disco voador pelo sertão).

Por esses títulos temos a dimensão da visão crítica que ele consegue imprimir nas letras e também na elaboração das capas de seus CDs.

Poderíamos continuar falando aqui só desses títulos ora engraçados, engajados politicamente, ora despretensiosos, mas com um pé fincado na realidade urbana, nesse caldeirão social onde ele capta a essência das ruas e a transforma em música.

Cinval, entretanto, é muito maior, pois faz questão de parecer um só, mas é uma verdadeira multidão de sons, gritos e de influências, sobretudo do Rock.

Essa inspiração o fez ir buscar também nos ritmos locais como o frevo, o maracatu, o caboclinho e outros, uma argamassa sonora para sedimentar e soerguer uma melodia que hoje muitas vezes soa estranha, quando não tem à disposição  ouvidos seletos e argutos como foi o caso do jornalista e crítico musical José Teles , do jornalista francês Eric Delhaye e de outros que consomem a música dele com uma sólida certeza de que é uma música feita do hoje, mas que provavelmente , será respeitada e compreendida amanhã.

A pergunta que fazemos é como essa música ainda não foi aproveitada dentro das produções audiovisuais feitas no Recife, como produtores, diretores renomados daqui ainda não despertaram para essa produção que conta hoje com 31 cds feitos quase todos “na tora” como ele costuma dizer e faz o Recife parecer um grande liquidificador sonoro.

Infelizmente, não sabemos responder, mas se você tiver paciência para assistir a esse documentário irá compreender o que falo.

Como vocês, o mago da música eletrônica, Cinval Coco Grude.

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2 comentários em “Cinval Coco Grude

  1. Meu amigo, como eu, quantos desconhecem estes trabalhos que rompem com o mesmismo. Faz nos enxergar como estamos consumidos por uma otica/”etica”do mais forte. Parabéns!! Acho que tenho que me perder por Recife, novamente.

    1. O maior presente que um turista pode receber numa cidade como o Recife, você recebeu: uma cagada de pombo em
      pleno centro da cidade, só os afortunados e escolhidos, você é um deles, estamos de portas abertas para vc
      sempre. Abraços!

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