PALAVRAS CÍNICAS

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“Foi em Dostoieewski que eu conheci um dia esta frase: “No fundo de cada um dos nossos contemporâneos residem latentes os instintos dum carrasco!”

Não tens tu encontrado, ó caricato, nas tuas horas de angústia, somente semblantes frios, corações empedernidos e ouvidos cerados? Quantas vezes perguntaste onde estavam a bondade humana, a justiça humana?

Quem te respondeu? Inútil a pergunta.

Ninguém.

Deus? Onde estava Deus?

Deus não é deste mundo! E cada dia que passa me convenço mais que nele só canalhas existem. Quem sou eu? Um canalha. Quem és tu? Um canalha…

O livro cujo título e fragmento acima inicia este texto escrito em 1905, eu disse 1905, e de autoria do português Albino Forjaz de Sampaio foi alvo à época de inúmeras críticas pela sociedade portuguesa pelo seu caráter extremamente pessimista e ácido , além de ter sido proibido de circular por obra da censura achando que a obra incitava ao suicídio e era um atentado aos bons costumes dos sentimentos mais elevados, tais como o amor, a amizade etc.

Conheci a presente obra através da amizade frutífera com Liêdo Maranhão a quem devo extensas referências eruditas, mas vamos falar sobre as cartas que compõem o livro e que me provocaram a alma.

Albino Forjaz vai ao longo das oito cartas do livro destilando seu veneno e dissecando um a um os mais nobres sentimentos e apresentando a existência desnuda cruelmente :

“ A vida é a escola do cinismo” Trazes coração? Esmaga-o ao entrar como uma coisa que nos compromete, que nos avilta. Se acaso és bom – tolice—não venhas. Aqui, para triunfar, é preciso ser mau, muito mau. Sê mau. Sê mau, cínico, hipócrita, respeitado e invejado. Ri do bem e da Virtude, da Alma e do Sentir. Ri de tudo, que é preciso que rias. Abafa um protesto com um sorriso, uma agonia com uma gargalhada, um estertor, com uma praga.”

Como vês, é impossível sair dessas linhas com as mesmas ideias as quais se entrou, o choque de realidade posto aqui é idêntico aos mais duros golpes do existir, esbarra-se por todo o texto com o lado avesso dos sentimentos, com a acidez deletéria que esconsamente mora no outro, no vizinho do lado, no parente próximo e íntimo, na própria família, no irmão, no pai , na mãe.

Na última parte do livro, há uma resignação profunda do autor em relação às angústias que o atormentam, e na busca por algum lugar deste mundo diferente o autor percorre o globo e encontra tão somente os mesmos dissabores, encurtamdo os textos e retirando algumas linhas dou-lhes o prazer de acompanhá-lo:

“Corri o mundo todo e por toda a parte vi a mesma desolação, a mesma luta, a mesma tragédia.

Via as regiões misteriosas do polo…

Via a Suiça alpestre e trabalhadora… A Itália com seus mármores… Vi a Índia com seus rajás…

Fui até à Austrália ver seus desertos ermos… Via a brumosa Londres, a devassa Paris, a melancólica Lisboa.

Topei no meu caminho com lordes e senhores de palanquim…Bebi vinhos aromáticos..Li todos os poetas…Li a Bíblia e o Alcorão.. Conheci todas as carnes. Vi os mármores de Fídias…

Vi a morte cem vezes e cem vezes a achei preferível à vida. Recordei todas as épocas. Conheci todas as fortunas..

Tive amantes entre as aristocráticas frágeis como vimes…

Vi mulheres de todos os países…

Em toda a parte vi medrar o mal e escarnecer o bem; subir o forte e o fraco ser pisado…

Milhares de vezes vi raiar o sol e o vi morrer.

Dormi as noites perfumadas do Oriente…

Andei todos os pontos cardeais da Vida. Conheço todas as falas, sei a forma por que se é canalha em todas as línguas…

Sei que a Dor é cosmopolita e eterna; que a humanidade é má e traiçoeira; que a Vida é uma coisa para que nem todos tem jeito…

Encontrei risos de todas as cores , beijos de todas as qualidades…

Conheço todas as raivas. A das aves que não têm ninho, a das almas que não têm amor , a das árvores que não têm frutos, a dos ventres que não têm filhos…

Vi como sucumbem os valentes e como morrem os covardes e achei em ambas a mesma morte…

Vi que a vida era má e escrevi estas cartas.

Se as leres no meio dum festim, as porás de parte com enfado, mas buscarás a sua consolação quando o mundo te fizer chorar…

São para aqueles que batem inutilmente a todas as portas e em nenhuma lhes ouviram a voz…

Elas foram escritas naqueles dias de agonia pavorosa em que nos vem um desejo indescritível de ser lama, ser pedra, ser oliveira, qualquer coisa enfim que não tenha dores, nem tenha lágrimas.

A Vida é uma jornada. E todos os dias se anda um passo para a Morte.

Que a Morte seja pois para ti— senão soubeste triunfar dos vivos — a tua única Ventura e a tua única Aspiração. “

Dirás tu que ando louco e pessimista , que não gosto mais da vida, que o que li e te envio é de mau gosto, creio não terás feito entendimento todo errado, mas me foi impossível não assistir também na minha pouca existência o triunfar do mal, a ascensão dos covardes, e não precisei percorrer os cantos do mundo e outros mares, vi bem ao meu lado, sobre mim, as tramoias dos grandes e até dos pequenos, pois sempre haverás os menores a serem engolidos.

Das linhas acima e do fortíssimo texto apenas confirmei que o bem, apesar de ser o horizonte, custa-nos vivê-lo e praticá-lo nesta selva e que se ainda assim insistirmos em fazê-lo e foi o que fiz e faço, prepara-te o lombo, pois apanharás tal qual uma besta humana.

RennatSaid

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